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UM GRANDE SIMPLES ADEUS

(Ricky Mastro - 18/02/2003)

18 de fevereiro de 2003 - um dia medíocre como todos os outros. Tentava achar uma razão de estar lá, vivo, respirando. Como costume no meu inconsciente questionava o porque de viver e estar ali por mais um dia. O tédio da vida comum consumia a minha alma. Pedia para os meus alunos repetirem e repetirem frases sem sentidos tentando ensinar a eles algo que talvez eles nunca iriam aprender.

O meu celular vibrava constantemente. Já não agüentava mais aquela mesmice da vida comum. Gente, café, aula, ar condicionado. Naquele momento tudo me irritava - e isso era a minha vida diária. Terminei aquela aula como todas as outras que dei. Duzentas, trezentas aulas eu já tinha perdido a conta. Sai de lá, deixei o crachá, entrei no carro. Tocava uma música de Bob Dylan que dizia quantas milhas um homem tem que percorrer para poder ser chamado de homem. Resolvi então conferir a minha caixa postal. E estava lá, gravado para a eternidade talvez ´o seu vovozinho morreu!´

Não sabia o que pensar. Aquela música entrava na cabeça e por um momento de lucidez pude achar um sentido para tudo. Pude realmente pensar e descobrir como a vida era fugaz e como nos preocupamos por coisas desnecessárias. Todo o meu egocentrismo foi deixado ao lado... já não queria mudar o mundo... já não precisava fazer isso...

Refleti - memórias da minha vida entravam e saiam da minha cabeça - já achava um sentido para estar lá... assim como o meu avô já não queria mudar o mundo, mas simplesmente fazer pelo menos uma diferença na vida de alguém.

Milton da Silva... como todos os outros... homem que viveu por mais de 80 anos... uma simples vida que passou... assim como todas as outras... será? Não... ele não foi como um qualquer...

Milton da Silva um guerreiro que começou desde cedo a lutar pela sobrevivência... que ensinou a mim pelo menos que sempre vale a pena recomeçar... que ensinou que por mais injustas que fossem as condições de vida, trabalho duro e dedicação levaria aos vitoriosos a lugares jamais sonhados...

Milton da Silva de contínuo a gerente de banco - me ensinou que trabalhar duro dá resultado sim. Disciplina e perseverança valeriam a pena...

Milton da Silva serviu ao exército - foi a revolução - me ensinou que deveríamos servir aqueles que nós acreditávamos - que deveríamos lutar por um ideal...

Milton da Silva - esposo - casado com Leonor por mais de cinqüenta anos - me mostrou desde cedo que um relacionamento estável é possível - que a história eles viveram felizes para sempre não era fábulas e sim um investimento em uma pessoa que passaria o resto da vida ao seu lado.

Milton da Silva - pai de dois filhos - Teresa e Milton - filhos dedicados e assim como o pai, guerreiros. Os dois nunca foram covardes para recomeçar e nunca assim como o pai desistiram de seu ideal. Que foram ramos que deram frutos e netos para Milton da Silva que além de tudo isso foi cantor, poeta, atleta e acima de tudo um sonhador...

Milton da Silva - não mais que um homem - um guerreiro que parte, mas deixa um exército com soldados que não tem plano ambicioso para modificar o mundo e sim possuem o objetivo de fazer diferenças na vida das pessoas e com isso mudar a realidade do mundo - assim como fez Milton da Silva em toda a sua vida...

Adeus, Milton da Silva - você estaria orgulhoso de tudo o que você deixou, assim como nós estamos felizes e gratos por você ter mudado tanto as nossas vidas.