(Ricky Mastro - 12/10/2002)
“Você não é amendoim mas torra!” ECB (1906-2002)
E aconteceu em pleno dia das crianças. Ninguém sabe como. Ninguém sabe o porque.
Era por volta das quatro da tarde e o anãozinho simplesmente se estatelou no chão.
Ele sempre esteve lá no jardim da minha casa. Eu não me lembro a primeira vez que o vi. Tenho fotos dele comigo no jardim em diversas épocas da minha vida.
Lembro no primeiro dia de aula na primeira série. Era uma tarde quente de fevereiro. Uniforme e material escolar novinho em folha. Estava ansioso com tanta novidade... uma vida nova estava para começar. O ônibus chegou, eu corri para o portão e lá estava ele – de uma certa maneira me desejando boa sorte.
E foi assim durante toda a minha vida. Aquele anãozinho era quase uma antítese da minha existência... ele de uma certa maneira não existia, pois afinal era um anãozinho de jardim, mas ao mesmo tempo era muito confortável saber que existia algo tão real e concreto... algo que era como um link ente o meu passado e presente.
A minha infância acabou e a adolescência finalmente chegou... Espinhas, hormônios, revolta. Por incrível que pareça aquele anãozinho era o único ser que me entendia, que falava a minha língua. Estático e mudo no meio do jardim.
É lógico que o tempo só não passava para mim. O tempo que me deixava mais maduro, belo e forte para enfrentar a vida que estava simplesmente começando era o mesmo que corroía e destruía aquele serzinho.
Eu mudei de casa e fui descobrir o mundo. E o anãozinho continuo lá parado e me esperando... vendo em que eu iria me transformar....
Virei um homem medíocre como todos os homens. Voltei para casa. Tenho certeza que para aquele anãozinho eu não era apenas mais um – eu ainda era aquele menino cabeçudinho que passava as tardes de verão tomando sol e sonhando com um futuro brilhante...
O anão continuava o mesmo... mas, eu tinha mudado... fazia questão de me afastar dele... não suportava a idéia de vê-lo enferrujando, despedaçado, esperando a destruição...
Quando
passava por ele fazia questão de estar com a cabeça
erguida... não queria vê-lo... não queria
de jeito nenhum enxergá-lo...
Mas a vida infelizmente nos obriga a ver e viver algumas situações...
Por mais que quisesse ele ainda estava lá... ou melhor
esteve... pois naquele 12 de outubro ele se foi....
Ninguém sabe como... ninguém sabe o porque...
Agora
eu tinha que ir até o jardim tirar os pedaços daquele
anãozinho que não estava mais lá... e infelizmente
não ia mais ver no que eu ainda planejava me transformar...