(Ricky Mastro - 27/09/2002)
‘Não
sou nada
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.’ –
Fernando Pessoa
Eu não me lembro quando começou, mas eu só
sei que quando eu me dei conta já tinha todo o esquema
preparado: um ou dois telefonemas, abrir o jornal, verificar o
horário da sessão. Um stress total para chegar lá...
fila para comprar ingressos, às vezes pipoca e para assistir
o filme. Correria total para pegar o lugar que eu queria (tinha
que ser a última fileira, cadeira do meio – não
importava o tamanho da sala), e então eu respirava fundo,
esquecia toda a tensão que eu tinha sofrido e relaxava...
por alguns instantes até esquecia que eu tinha feito todo
aquele sacrifício para chegar lá...
O filme começava... ou melhor os trailers começavam e eu ficava vidrado com os lançamentos que estavam por vir... no começo esse prazer era quase instantâneo – os trailers duravam de 1 a 2 minutos... mas depois aquele quase orgasmo cinematográfico começou a crescer e crescer e às vezes chegava-se ao cúmulo de durar quase 20 minutos.
Os trailers acabavam e o filme começava... algumas vezes tive até o ímpeto de levantar da cadeira e ir embora afinal o melhor tinha acontecido. Já estava inteirado pelos lançamentos que estavam por vir nos próximos meses. A ansiedade era grande e eu já planejava quando, como e onde eu iria assistir esses novos filmes.
Ir ao cinema para mim funcionava como um escape da minha vida real. Nos momentos mais difíceis chegava a assistir 3 ou 4 filmes na mesma semana. Filmes não de uma certa maneira. Descobri que ia até lá assistir os trailers, pois esse sim era o evento mais interessante do dia...
Comentei uma vez com os meus alunos que de vez em quando ia ao cinema sozinho. Eles ficaram chocados com tamanha anti-sociabilidade, mas a magia das telas me fascinavam de uma certa maneira que não importava se alguém ou com quem estava ao meu lado...
A vida foi passando e a minha psicose em relação aos trailers aumentava... cheguei ao cúmulo de ir ao cinema somente para assistir os trailers que ali passavam...
Já estava quase no ápice da maturidade quando decidi ir mais uma vez ao cinema... Mas, aquela vez seria diferente...
Acordei, não olhei o jornal, peguei o meu carro e fui...
Pela primeira vez observei as casas, as ruas e as pessoas do local onde eu morava. Chegando lá, olhei a menina espinhuda que vendia os ingressos pela primeira vez nos olhos... não perguntei o nome do filme.
Disse apenas que queria a próxima sessão...
Comprei pipoca, fiz questão de perder os trailers. Entrei na sala e sentei no canto.
Pela primeira vez depois de tantos anos realmente assisti o filme – que na verdade começava ali e terminava num dia em que eu ainda estava em forma de um brilho nos olhos de mamãe – o filme que contava a história da minha espetacular e medíocre vida.