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O VÔMITO

(Ricky Mastro - 16/09/2002)

‘True I talk of dreams, which are the children of an idle brain begot of nothing but vain fantasy’ from Shakespeare’s Romeo and Juliet


Eu já não aguentava mais o cheiro forte de vômito que se espelhava pelo meu quarto. Era a quinta ou sexta vez que eu vomitava aquele dia... mas, essa era a tradição do local onde eu morava, a terra do lalalá... ou você comia o doce e passava mal ou você nunca ia saber o gosto daquela determinada guloseima...
Esse processo começava na adolescência... é lógico que sempre tinha os mais apressados e os mais lentinhos... mas sempre era assim... a gente saia de casa e no caminho para a escola, faculdade ou trabalho dava de cara com o doceiro. Ele tinha um carrinho lotado de doces: todas as cores, tamanhos, e formatos.... e a gente escolhia e pagava por um... era sempre apenas um... E é claro que somente alguns podiam comer os mais refinados... essa era a vida, não é??? O capitalismo selvagem existia até na terra do lalalá... De vez em quando aparecia alguém questionando a nossa tradição. Afinal, nós éramos diabéticos e aqueles doces matariam todos nós um dia... qual seria a vantagem de comer algo que iria nos destruir ?
Aí que estava todo o mistério da terra do lalalá... dentro de todas as espécies de doces existia um que era feito numa noite onde a lua cheia ficava no meio do céu... as estrelas brilhavam tanto que fazia a lua virar protagonista. Era uma noite mágica onde todos se sentiam como reis e rainhas... onde o prazer parecia eterno e a felicidade algo tangível. Era esta noite que um doce, somente um, era produzido e colocado aleatoriamente em um dos carrinhos... e era isso que a população daquele povoado procurava... o doce que ao invés de consumir e intoxicar a alma supria e consumia a mesma por toda a eternidade... e esse era o doce que eu pensei que eu tinha comido há umas três semanas atrás... e é o mesmo doce que eu vou procurar pelo resto de minha vida..